25/12/2009

“Dois anos no FC Porto habituaram-me mal”

José Mourinho deu uma entrevista ao PÚBLICO onde fala dos dias conturbados que vive em Itália, mas também da sua opinião sobre jogadores naturalizados na selecção portuguesa ou da relação que muitos adeptos do FC Porto mantêm com ele.

“Dou o peito às balas e sempre darei. Nasci assim no futebol e vou morrer assim. Mas também lhe confesso que sabe bem, de vez em quando, ver aparecer alguém com um colete à prova de balas! Dois anos no FC Porto habituaram-me mal…”. A frase é de José Mourinho e faz parte desta entrevista, que o técnico do Inter de Milão concedeu ao PÚBLICO por e-mail. O mote principal foram as críticas de que Mourinho tem sido alvo nos últimos tempos na imprensa italiana, que ainda há dias o acusava de ter insultado e agredido um jornalista. Mourinho explicou o incidente, pediu desculpa, mas garante que o seu comportamento tem sempre um objectivo: “A defesa dos interesses do meu clube, sem nunca me preocupar com o que dele resulta para a minha imagem”. De resto, desvaloriza as informações de que a sua continuidade à frente do campeão italiano estará dependente da conquista da Liga dos Campeões. “O meu lugar está sempre em perigo, porque treino sempre clubes que muitos querem treinar…”.

Foi acusado de ter agredido “verbal e fisicamente” o jornalista Andrea Ramazzotti, do Corriere dello Sport, no final do jogo do Inter de Milão com a Atalanta, em Bergamo (que viu das bancadas por estar castigado). O que aconteceu?

Já referi o que se passou. E o que se passou foi consequência de um processo. Mas explico de novo. Há meses que digo no clube que não quero ver junto à porta do nosso autocarro um jornalista que espera a chegada dos nossos jogadores. Este deve ser um espaço reservado, até porque, depois de um jogo, com as emoções dele resultantes, pode dizer-se qualquer coisa… Depois dos jogos, os jornalistas têm o seu espaço para trabalhar, na sala de imprensa, na zona mista… Por isso, disse que não o queria ali e disse-o também ao senhor jornalista, porque era sempre o mesmo, várias vezes. Mas, pela milésima vez, em vez de lhe dizer ‘que faz o senhor aqui?’, disse ‘que faz aqui este fdp…?’. Não houve nem agressão física nem sequer tentativa de agressão. Já admiti que errei e que não devia ter dito o que disse, mas apesar disso, para mim foi uma coisa “simples” e facilmente solucionável por dois homens. Desde que, claro, nenhum deles quisesse transformá-la num facto de dimensão mundial.

A Associação de Jornalistas Italianos pediu que o presidente do Inter e a federação italiana tomassem “medidas enérgicas” contra si. Moratti sublinhou que a situação não lhe agradava, mas que pretendia primeiro perceber o que queriam dizer com “medidas enérgicas”. Como entendeu esta declaração do presidente do seu clube?

Digo sempre e repito: presidente é presidente e pode fazer o que quiser e dizer o que entender. Eu não sou ninguém para comentar os seus actos e declarações.

Mesmo que isso não seja uma novidade na sua carreira, o que é que explica tantos problemas com os jornalistas? Sente-se perseguido? Não acha que isso também resulta do seu comportamento?

O meu comportamento tem sempre um objectivo — a defesa dos interesses do meu clube, sem nunca me preocupar com o que dele resulta para a minha imagem. Será um defeito ou uma virtude? Pergunte a quem trabalhou comigo no passado.

O La Stampa escreveu o seguinte sobre si: “Quatro expulsões num ano confirmam a alcunha de Special One: nenhum técnico em Itália o tinha conseguido”… Há má vontade dos árbitros contra si ou você é que estava mal habituado?

Quatro expulsões? Olho para o banco do lado e vejo comportamentos que não são sequer comparáveis aos meus. Chamo é a sua atenção para este facto: na prática, sou o único treinador estrangeiro a trabalhar na Série A, porque Leonardo será mais italiano que brasileiro, dado pertencer a um núcleo deste futebol, quer pelos anos em que nele está inserido e também por ter trabalhado na imprensa italiana bastante tempo. É vida difícil, sim senhor…

Antes, tinha sido o Corriere dello Sport a garantir que o seu lugar estaria em perigo se não tivesse ganho ao Rubin Kazan e tivesse falhado o apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Sentiu isso?

O meu lugar está sempre em perigo, porque treino sempre clubes que muitos querem treinar, porque deixo sempre equipas montadas para anos futuros, porque deixo sempre condições de trabalho e estruturais óptimas para quem chega de novo. Mas se o meu lugar está em perigo depois de ter vencido o campeonato, estar novamente a liderá-lo e me ter qualificado para a Champions… imagine como estarão os lugares daqueles que ciclicamente falham objectivos.

Depois de ter sido acusado de arrogante, há agora quem diga que parece mais um homem amargurado… Isso foi também escrito em Portugal depois de você ter afirmado o seguinte a um jornalista da RTP: “Até me espanta ver cá uma televisão portuguesa, só cá vieram porque vos cheirava a esturro e cheirava-vos à possibilidade de sangue, mas o Inter continua na Liga dos Campeões”. Fica a ideia de que sente acossado e vê inimigos em todo o lado…

Não estou nada amargurado, não me sinto acossado nem vejo inimigos em todo o lado. Mas não é verdade o que eu disse? Ouça os comentários feitos aos jogos do Inter…

O Inter recorreu recentemente ao “black out”. Foi uma decisão sua ou dos responsáveis do clube?

Isso foi antes da nossa ida a Turim. Limitámo-nos a contribuir para que o jogo decorresse com total tranquilidade

No La Repubblica podia ler-se, nos últimos dias, o seguinte título: “Mourinho e L’ Itália, amore finito”. É mesmo assim?

Amore finito? Olhe, em primeiro lugar quero dizer-lhe que o meu amor pela profissão de treinador não acabará nunca. Em segundo perguntar como pode ter acabado o amor com a Itália se nunca houve amor com ela? Finalmente, digo-lhe que gosto de trabalhar aqui, que gosto dos interistas, que gosto das coisas difíceis. Por isso, estou bem.

Mas, a La Gazzetta dello Sport publicou um artigo a sugerir que você, com os últimos comportamentos, é que está a forçar de propósito a saída do Inter. A justificação, podia ainda ler-se, era que teria de pagar uma indemnização de seis milhões de euros no caso de uma rescisão unilateral. É verdade?

O clube e eu assinámos um contrato muito objectivo. Até 2012, porque queremos trabalhar juntos. Mas com uma cláusula de rescisão que o Inter me pagará caso deseje a minha saída e uma outra que eu pagarei ao Inter caso deseje sair… Tudo muito fácil e objectivo. Connosco nunca sucederá uma história interminável como sucedeu no passado com outros. Homens honestos, contratos honestos, objectividade!

No final de um jogo, você parecia saber menos da lesão de um seu jogador que o próprio jornalista. O Inter tem uma estrutura e uma organização deficientes?

O Inter tem um médico excelente que, para além de médico, é um amigo. Ele cresceu numa cultura de trabalho diferente da minha e está agora a adaptar-se a ela. Tudo bem… Com os problemas cresce-se! Eu concebo assim a maturação e funcionalidade de uma estrutura.

Tal como no Chelsea, é sempre você a dar o peito às balas. Preferia ter a rodeá-lo dirigentes com uma cultura desportiva mais belicista?

Dou o peito às balas e sempre o darei. Nasci assim no futebol e vou morrer assim. Mas também lhe confesso que sabe bem, de vez em quando, ver aparecer alguém com um colete à prova de balas! Dois anos no FC Porto habituaram-me mal…

Concordou com a troca de Ibrahimovic por Eto’o?

Não há um treinador que queira perder “Ibra” e eu não fujo a essa regra lógica, mas Eto’o é um grande jogador e agarrei-me a ele e a Milito para construir esta equipa sem “Ibra”. E a verdade é que somos líderes e continuamos na Champions.

Em Espanha, Santiago Segurola, na Marca, escreveu que o melhor que aconteceu ao Barcelona foi Juan Laporta ter escolhido Guardiola em vez de Mourinho…

Estou totalmente de acordo com Segurola. Pep está muito adaptado ao “Barça” e à sua cultura. É seguramente o melhor treinador para o “Barça” e, como disse a ele pessoalmente, espero que seja treinador do “Barça” para sempre.

Consegue antecipar as emoções que vai sentir quando voltar a entrar, em Fevereiro, no estádio do Chelsea? E acredita que vai ser bem recebido?

Vou regressar a Stamford Bridge antes da eliminatória da Champions para ver um jogo e, sobretudo, porque não quero regressar pela primeira vez àquele estádio para jogar. Nesse dia, quero estar “frio”, mas sei que não vai ser fácil. Foi uma história bonita demais… Sim, não posso esquecer que vou jogar contra os meus amigos.

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